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Real Arco & Arco Real

por João Guilherme C. Ribeiro, MI, MRA, SEM, PGSS, DGGHP-Latin América*

A antiga pura Maçonaria consiste de três graus e somente três, isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre, incluindo o Sagrado Real Arco [...].” Este é o início do segundo artigo do Tratado de União, em 1813, entre as duas Grandes Lojas rivais inglesas. Historicamente equivocado e matematicamente inexato.

Historicamente equivocado

A antiga pura Maçonaria consiste de três graus [...].” Tolice. A primeira menção clara feita ao grau de Mestre Maçom ocorreu somente em 1725, quase 80 anos após a iniciação do primeiro iniciado inglês, Elias Ashmole, nos registros de uma associação de amigos da arte, restrita a Maçons, denominada Philo-Musicae et Architecturae Societas Apolloni. Conta Coil(1), que, “até 1738, alguns candidatos eram admitidos segundo o sistema de dois graus, outros segundo o sistema de três Graus. O Grau de Mestre não foi trabalhado ou tido como necessário até o meio do século [isto é, o século XVIII] e, quando conferido, era usualmente em corpos separados da Loja ordinária, chamados Lojas de Mestres [...]”.

Matematicamente inexato

“[...] três graus e somente três, isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre, incluindo o Sagrado Real Arco[...].” Então são quatro, e não três, correto?

O conceito de grau lateral é anterior à União de 1813. E diz respeito ao Grau de Mestre! Não se surpreenda. Hoje, a Maçonaria é uma Instituição consolidada, cada coisa em seu lugar. Mas levou tempo para que isso acontecesse. O mesmo Coil reporta que somente em 1731 o Grau de Mestre é referido na Canongate Kilwinning Lodge. E outras Lojas escocesas só o conheceram em 1760!

Desse tratado, por motivos políticos, o Sagrado Real Arco foi feito “um grau lateral”, uma modificação que distanciou a versão inglesa da forma original. Hoje, quando as duas formas (a original e a modificada) estão estabelecidas, são consideradas regulares e convivem em amizade, não é o como, mas o porquê é que importa.

Razões de Estado

Isto mesmo: razões de estado. Não vamos fazer aqui, por falta de espaço, um tratado histórico. Mas não é possível entender a evolução da Maçonaria sem saber um mínimo do contexto histórico inglês da época.

Simplificando, a Maçonaria floresceu sob Charles II Stuart no trono do Reino Unido. Quando ele morreu sem herdeiro legítimo, seu irmão,James II, converteu-se ao catolicismo e tentou empurrá-lo goela abaixo dos súditos, coisa inaceitável para os ingleses, que o chutaram para fora do trono. Refugiado na França, o rei destronado, seu filho e seu neto representariam sério potencial de instabilidade política para a dinastia Hanover, sucessora dos Stuarts no trono britânico.

A Maçonaria inglesa estava tão dividida quanto o resto do povo. Há evidências de que a criação da Primeira Grande Loja, em 1717, serviu para que a nova dinastia impedisse que as Lojas, um dos mais eficientes canais de comunicação da época, fossem instrumento de disseminação da propaganda jacobita.(2)

Esse estado de coisas ainda perdurava quando da União em 1813. Como os Altos Graus não tiveram origem na Inglaterra, eram olhados com suspeição pela Coroa britânica.

Veio de fora, olho nele!

O Real Arco foi o primeiro desses Altos Graus. É incerto se veio da Irlanda (onde há as primeiras referências ao grau), Escócia ou França. O importante é que, quando surgiu uma segunda Grande Loja em 1751, autodenominada Os Antigos e fora da tutela do establishment, esta “adotou” o Real Arco como um diferencial, a “perfeição e consumação do Terceiro Grau”. Enquanto isso, a Grande Loja rival, a original de 1717, apelidada pejorativamente de Os Modernos, não o aceitava nem a pau.

Com o tempo, as atitudes foram se abrandando. Em 1813, os jacobitas eram apenas uma memória. Entretanto, ainda assim, quando as duas Grandes Lojas, Antigos e Modernos, se fundiram na Grande Loja Unida da Inglaterra, persistiu a velha desconfiança – e o Real Arco inglês foi colocado, como um grau “lateral”, sob a tutela da nova Grande Loja, sob a vigilância rigorosa do Augustus Frederick, duque de Sussex. Por 30 anos dono absoluto da Maçonaria inglesa, Sussex impediria os Altos Graus. O Supremo Conselho inglês somente seria estabelecido em 1843. E o Grau de Mestre de Marca somente seria permitido como “uma graciosa adição ao Grau de Companheiro” em 1856.

Na América, a história foi outra

O primeiro registro que se conhece da colação do Grau de Maçom do Real Arco é americano: aconteceu na Fredericksburg Lodge, de Virgínia, em 1753. A “colonização” maçônica dos Estados Unidos deu-se sob Cartas Constititivas outorgadas por quatro Grandes Lojas:Modernos, Irlanda, Escócia e Antigos. As três últimas tinham excelentes relações entre si, mas não com os Modernos, antipatizados como parte do establishment. Realmente, quando as relações entre a Grã-Bretanha e as colônias americanas se deterioraram, de um modo geral, enquanto os Maçons das três jurisdições tendiam para os rebeldes, os Modernos tendiam para a Coroa. Quando houve a separação, a influência dos Modernosdesapareceu na América. Daí a continuação do Real Arco dentro da tradição dos Antigos, até consolidar-se nos quatros Graus da Maçonaria Capitular do Rito de York. O General Grand Chapter of Royal Arch Masons, International tem seu início em 24 de outubro de 1797. As modificações introduzidas na União da Maçonaria inglesa, isto é, o controle do Grau de Maçom do Real Arco pela Grande Loja e a supressão dos outros graus por décadas a fio, não influenciaram em nada, absolutamente, a Maçonaria americana. Lá, o Real Arco continuou original e Capitular, parte dos Altos Graus do Rito de York. Seus rituais impressos datam de 1797. O primeiro ritual do Arco Real inglês data de 1834.

No mundo atual

É preciso entender que o Arco Real inglês continua parte dos Graus Simbólicos, tal como determinado pelos artigos da União de 1813. Ele é conferido em “Capítulos” subordinados a uma Loja e sob a jurisdição de uma Grande Loja. Não pode ser diferente. Uma Grande Loja não pode ter senão Graus Simbólicos. Se o Real Arco inglês fosse transformado em Capitular, teria que ser independente da Grande Loja Unida ou esta ficaria configurada como Potência mista e, como tal, irregular perante os oito pontos de regularidade estabelecidos por ela própria, em setembro de 1929.

O Real Arco americano, desde 1797, é Maçonaria Capitular, independente das Potências Simbólicas, e conserva as características originais do Grau, como a Passagem dos Véus, no Grau de Maçom do Real Arco.

Uma evidência clara disto está nos aventais de ambos os sistemas. Enquanto o avental do Real Arco americano é orlado de vermelho, caracterizando o sistema Capitular, diferente das Blue Lodgessimbólicas, o avental do Arco Real inglês é tem uma orla dentada em azul (do Simbolismo) e vermelho (dos Altos Graus).

Os dois sistemas convivem em harmonia, respeitando as diferenças básicas. Para que se possa entender as relações complexas entre os dois sistemas, aqui estão alguns pontos básicos:

Em 1889, Reuben C. Lemmon, General Grand Treasurer e depois General Grand High Priest, organizou um resumo das decisões (Proceedings) do General Grand Chapter, intitulado Digest of the Decisions of the General Grand Chapter of Royal Arch Masons. Em 1960, este resumo foi atualizado.

Intervisitação

Uma decisão que diz respeito às relações com a Maçonaria inglesa diz o seguinte:

Visitation

1. Any member in good standing in one of our Subordinate Chapters can visit in any recognized Grand Jurisdiction.

Traduzindo, qualquer membro estando regular um de nossos Capítulos pode visitar qualquer Grande Jurisdição reconhecida.(Proceedings do General Grand Chapter RAM, 1933, pp. 152-153)

2. A member of a Subordinate Chapter of the General Grand Chapter may visit a Chapter under the jurisdiction of the Supreme Grand Chapter of England and witness the conferral of the Royal Arch Degree on one who has not received the Mark, Past and Most Excellent degrees, provided (sic) that this right of visitation is not necessarily reciprocal, and that no one may visit a Subordinate Chapter during the conferring of a degree which he has not received.

Traduzindo, um membro de um Capítulo subordinado ao General Grand Chapter (americano) pode visitar um Capítulo sob a jurisdição do Supremo Grande Capítulo da Inglaterra e testemunhar a colação do Grau de Maçom do Real Arco em alguém que não tenha recebido o Grau de Mestre de MarcaPast MasterMui Escelente Mestre, desde que este direito não seja necessariamente recíproco, e que ninguém poderá visitar um Capítulo Subordinado (americano, ele quer dizer) durante a cerimônia de um Grau que não tenha recebido. (Proceedings do General Grand Chapter RAM, 1933, pp. 152-153)

Entendemos então que os americanos aceitam que um MRA americano assista a uma cerimônia do Arco Real inglês e vice-versa, mas não que um MRA inglês esteja presente nos demais Graus Capitulares americanos, a menos que seja iniciado.

Reconhecimento

No History of Royal Arch Masonry, de Everett R. TurnbullRay V. Denslow, editado em 4 volumes pelo General Grand Chapter of Royal Arch Masons, temos, no volume I,

– Na Trienal de 21 de agosto de 1877, em Buffalo, New York: The recognition of the Grand Lodge of Mark Masters of England and Wales was again brought up and by a vote of 66 to 53 was recognized – o Grande Capítulo Geral de Maçons do Real Arco internacional reconheceu oficialmente a Grande Loja de Marca inglesa (o assunto havia sido debatido na Trienal de 1874, realizada em Nashville, Tenessee)

– Na Trienal de 12 de outubro de 1897, é relatado que o Comp. Graff M. Acklinapresentou as saudações oficiais doGeneral Grand Chapter ao Grão-Mestre da GrandeLoja Unida da Inglaterra, o príncipe de Gales (mais tarde Edward VII), em sessão comemorativa do Jubileu de Diamante do reinado da Rainha Vitória.

– Na Trienal de 1º de setembro de 1915, em São Francisco, Califórnia, foi retirado o reconhecimento do Grand Chapter of Scotland, devido a divergências nas Filipinas.

– Na Trienal de 10 de setembro de 1924, em Portland, Maine, o General Grand Chapteracertou as diferenças com oSupreme Grand Chapter of Scotland. A partir daí, representantes oficiais têm comparecido a diversas Trienais.

– Na Trienal de 11 de outubro de 1933, estiveram oficialmente presentes o Conde de Cassillis, Primeiro Grande Principal, eGeorge A. Howell, Grande Escriba E do Grand Chapter of Scotland.

– Na Trienal de 4 de setembro de 1946, atrasada em um ano pelo final da guerra falta de hotéis disponíveis nos Estados Unidos e realizada em Winnipeg, Manitoba (Canadá), foram feitos membros honorários do General Grand Chapter R.H.F. Moncrieff e o conde de Harewood, Primeiros Grandes Principais do Supreme Grand Chapter of Scotland e do Supreme Grand Chapter of England, respectivamente.

– Na Trienal de 6 de outubro de 1948, em Nova York, o duque de Devonshire, Grande Principal do Supreme Grand Chapter of England, foi feito membro honorário.

E hoje?

Na atualidade, as duas versões do Real Arco – a original, americana, proveniente do Real Arco da Grande Loja dos Antigos, e a nova versão, inglesa, criada após a união de 1813, como um Grau lateral dentro do simbolismo – mantêm uma tradição de intervisitação nos dois Graus comumente trabalhados, Maçom do Real ArcoMestres de Marca (para os MRA ingleses que o tenham recebido). Para os Graus de Past MasterMui Excelente Mestre, entretanto, é preciso que os Companheiros ingleses sejam neles iniciados. O Grande Secretário da Grande Loja Unida da Inglaterra ratificou esta posição em carta recente ao nosso Grande Sumo Sacerdote Geral Internacional, M. Exc. Comp. Larry Gray.

Referências

(1) Coy, Henry Wilson – A Comprehensive View of Freemasonry, Macoy, 1996

(2) Denomina-se de jacobitas aos partidários da restauração dos Stuarts no trono do Reino Unido. A ameaça só se extinguiu em 1745, com a derrota deles na batalha de Culloden.

* As iniciais após o nome do autor significam: MI, Mestre Instalado; MRA, Maçom do Real Arco; SEM, Super Excelente Mestre (Graus Crípticos); PGSS, Past Grande Sumo Sacerdote; DGGHP-Latin America, Deputy General Grand High Priest – Latin América